sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Surf - O Lado das Namoradas / Direito de resposta

Por Natasha Aragão - Fonte Waves
Segundo Natasha Aragão, a mulher precisa fazer parte da vida do surfista. Foto: Bruno Lemos / Liquid Eye.
Indignada com o texto de Fred D'Orey Namorada de Surfista, publicado no dia 24 de dezembro pelo Waves, a internauta Natasha Aragão resolveu apresentar a versão feminina da história. Confira o texto abaixo.

Na véspera de Natal me deparei com uma coisa inédita. Ao olhar seu site preferido de surf, meu namorado soltou a seguinte frase: “olha só, você não é a única”.
É, ele se referia a um texto sobre namoradas (insatisfeitas) de surfistas. Para piorar a situação, me olhou com as sobrancelhas arqueadas como quem diz: “viu só”.

Resolvi ler. Leitura rápida, devido às frases de mal gosto e egoísmo que compunham o texto. Além de machista, ele trata as mulheres como se elas não tivessem vontade própria e o direito de gostar de coisas diferentes.


Que me desculpe o autor Fred D'Orey, mas o texto é antigo, sem graça e feito pra agradar somente um público: homens que não dão valor às mulheres que têm.


Imagine se fizessemos um texto para reclamar de cada coisa que vocês não topam fazer? Além do mais, cada um tem sua vida e as mulheres têm uma capacidade gigantescamente maior do que a dos homens para aturar fazer coisas que não gostam.

Não quero menosprezar os homens, nem os surfistas e nem ninguém mais. Hoje quero apenas contar nossa versão, o lado feminino da história e, quem sabe assim, os homens parem de reclamar de boca cheia!

Para mim nem tudo foi uma maravilha no começo. Nunca tinha ficado com um cara que surfa, nunca gostei de praia e sempre fui branca igual leite. Mas aí, vocês sabem como é o amor, mudei da água para o vinho. Em questão de dias eu estava na praia pegando sol e, de vez em quando, entrando em sites de surf pra ver as condições do mar.

Eu já estava virando expert no assunto. Sabia quando e onde ia ter onda. Olhava as condições do tempo, planejava tudo na cabeça e falava pra ele. O que eu recebia em troca? Um torpedo: “Amor tô indo surfar com os guris, depois vou aí te ver”. Ok, vai que hoje ele já tinha combinado com os amigos, tudo bem.

Foi assim por um tempo. Eu de um lado imaginando tardes de sol na praia, lendo livros e fotografando meu atleta na água. Do outro lado, ele pegando onda com os amigos e indo me ver depois, sem entender que eu queria fazer parte daquilo.

Quando ele vinha me ver fazia questão de ficar contando das manobras e mostrando vários vídeos de surf. Tudo bem, eu gosto, no começo é tudo novidade. O problema é quando o tempo começa a passar e você vê que, ou você tenta fazer parte daquilo de vez, ou um dia não vai mais ter espaço pra você. 

Você vai ser sempre a namorada que ele vem ver depois da praia, que não participa das viagens e que não entende nada da vida dele! 

Dei um ultimato! "Quero fazer parte disso também". Dito e feito, ele percebeu que seria mais legal desse jeito. Assim ele não precisava dividir a atenção e o tempo entre eu e o surf. Nesse período a vida deu uma guinada. 

Começamos a ir juntos à praia, fizemos uma pequena surf trip até a casa de praia e vivemos de amor, praia e surf por algumas semanas. O homem fica realmente feliz quando você compartilha e participa das coisas que ele ama. Tudo fica melhor. O namoro, o sexo, a rotina e... Perai, e a minha vida?

É nesse momento que saímos daquele momento de cegueira do amor e começamos pensar. Praia cheia de gente feia? Claro que não queremos ir. Fim de semana de folga, inverno e eles querem ir pra praia? Que boa ideia, mal podemos esperar pra passar horas sozinhas, esperando por vocês, que vão chegar cansados e cair na cama. 

Passar por milhares de praia, ver o sol indo embora e só parar em alguma quando já está frio e você está cansada? Adoramos. Ficar na areia sozinhas, em praias desertas, sem ter ninguém pra conversar? Super legal. 

Afinal, o nosso tempo e dinheiro têm que ser gastos de acordo com o que vocês querem, não é mesmo? Vontade própria não podemos ter, tudo gira em torno do umbigo dos nossos namorados surfistas.

Até agora já tive que entender que você não pode viver sem fazer isso, que se ficar uma semana sem surfar pode te enlouquecer, que não tenho que ter ciúmes disso... Depois de um tempo fui sentindo que, pra mim, também faltava algo. É aí que começa o problema.

Mulher não é uma criatura tão complicada de conviver, nós gostamos de ter relações de troca: eu faço por você, e você faz por mim. Quando as coisas não são desse jeito, meu amigo, pode apostar que vai dar errado.

Pra vocês, nós temos que ser sempre lindas e magras, disponíveis psicológica e sexualmente o tempo inteiro. Se vocês querem surfar, temos que ir. Se nós queremos viajar, tem que ser pra onde tem praia (e onda). Se vocês querem surfar no sábado de manhã, temos que ir dormir sexta-feira às 10 horas da noite pra acordar cedo no outro dia. Se queremos fazer algo diferente ou não ir à praia, quer dizer que odiamos o surf, odiamos vocês e queremos iniciar uma guerra contra a prancha.

Calma lá, não é assim. Depois de um tempo comecei a sentir falta da vida social, de ir a um barzinho, de sair nos finais de semana à noite e de fazer coisas que pessoas de 21 anos fazem. Meu namorado viu isso como uma rejeição ao esporte dele, como se eu quisesse confrontá-lo ao dizer que o fim de semana tem dois dias e ele pode surfar em um só. “Um só? Como assim? Você quer que eu pare de surfar?".

Homens, surfistas, namorados. Vocês tem que dar uma segurada na emoção. Surfar é legal, é saudável e nós gostamos sim de ficar na areia por horas sem fazer nada só pra agradar. Acontece que nós também tínhamos uma vida inteira antes de conhecer vocês. Também temos hobbys e queremos que vocês nos acompanhem nisso.

Namorar alpinista, qual o problema? E se nós fossemos alpinistas? Vocês se pendurariam de ponta cabeça pra nos seguir? E se fossemos modelos e vocês tivessem que ficar sentados por horas enquanto tiramos fotos? E porque temos que seguir, abaixar a cabeça e amar o que vocês fazem o tempo todo? Antes de reclamar, pensem se vocês fariam por nós pelo menos 20% do que fazemos por vocês. 

Parem de achar que estamos contra, pensem na troca. Somos capazes de aceitar que nosso namorado tenha dois amores desde que cada um receba atenção e tempo proporcionais. A prancha não precisa ser nossa inimiga, e só vocês são capazes de tornar essa relação tripla em algo harmonioso e de muito amor.

E se, caso alguém esteja se perguntando, pra mim tá tudo melhor. Tive essa conversa franca com meu surfista e hoje a relação melhorou. Fazemos programas divertidos, em família, sozinhos, planejamos viagens. Mas isso tudo só acontece porque, depois de muito tempo, ele aprendeu que tudo que ele faz pra me agradar, eu faço por ele em dobro!

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