quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Skate - Skate em Maranguape, Diversão levada a sério na terra do humor

Por: George W. Noronha
Maranguape sempre foi mais conhecida como Terra Natal do humorista Chico Anísio. O que pouca gente sabe é que há décadas o município conserva uma estreita relação com os esportes radicais. A primeira tribo a descobrir essa vocação foi a dos pilotos de asa delta, com a instalação de uma rampa no alto da serra em meados da década de 1985. De lá pra cá essa cena ganhou força e novas modalidades como o Mountain Bike, trekking, escalada, rapel, dentre outras, surgiram para movimentar essa pacata cidade.

E pegando carona nesse cenário de efervescência criado nos anos 1980, um outro esporte começava a despontar através de alguns pioneiros que influenciaram toda uma geração. Era a tribo do skate, que surgiu em Maranguape no início da década de 1990.
Os primeiros a desbravar as ladeiras e praças da cidade sobre as quatro rodinhas foram os amigos Virgílio Cavalcante, “Contoin”, Lindemberg, entre outros. Naquele época não existiam locais apropriados para a prática do esporte. Pelo contrário. Pesava sobre o skate o fardo do preconceito e desconhecimento sobre os movimentos punk e anarquista, a base da cultura desse esporte.  Como em todo mundo seus praticantes eram muito discriminados e somente com muito amor ao “carrinho” era possível transpor todos os obstáculos que se apresentavam. Um cenário bem diferente do que encontramos atualmente.
Segundo Virgílio, que hoje é Diretor da Escola Clodoaldo Pinto, em Maracanaú, tudo começou como uma brincadeira. Uma maneira de expressar suas opiniões através de algo novo e fascinante. Andar sobre um skate parecia mágica… Nessa época ele e os amigos iam juntos para o lendário Bowl da Av. Beira Mar, ver a turma da Capital arrepiando nas manobras radicais. Contudo, devido ao localismo, as pessoas que vinham de fora, como era o caso deles, não podiam se quer dar uma voltinha no famoso Bowl. Era necessário ter um amigo que não só convidasse, mas que também convencesse os locais de que a turma era sossegada. Segundo Virgílio esse localismo, junto com a distância entre o Bowl e Maranguape, acabaram forçando os amigos a procurar e encontrar lugares para andar de skate ali mesmo, no município. Praças, ladeiras, calçadas, escadas… tudo virava uma pista, um obstáculo a ser transposto, porque naquela época, andar de skate por si só já era superar um obstáculo. Foi assim que o nasceu o skate propriamente dito, em Maranguape.
A 2ª Geração
Talvez o melhor exemplo da influência da primeira geração de skatistas maranguapenses seja o estudante de educação física e fotógrafo, Jeancarlo Façanha. Vivendo em uma nova época para o esporte em geral, Jeancarlo representa um retrato da transformação que o skate sofreu nos últimos 20 anos. Tendo iniciado no esporte com apenas 10 anos de idade, atualmente contabiliza 15 anos dedicados ao skate. Hoje, ele é o maior expoente do município nas quatro rodinhas e referência unânime para a próxima geração que já vem por aí.
Entre os feitos, Jeancarlo já protagonizou algumas turnês pelo estado do Ceará e pelo Nordeste, tanto para participar de competições, quanto para fazer apresentações e treinos, além de também ter morado em Curitiba, época muito importante para a sua consolidação como amante do skate.
“Comecei andar de skate motivado por amigos e principalmente pelo meu irmão, Juancarlo Façanha, que já praticava e foi quem me apoiou quando eu estava aprendendo… Durante muitos anos fui o mais novo da turma, pois, a maioria que curtia o skate tinha de 15 anos pra cima… Cresci em cima do ‘carrinho’ e através dele aprendi as maiores lições da minha vida como por exemplo, ter respeito por tudo e em tudo o que faço. E isso aplico tanto na relação com meus amigos, quanto a mim mesmo. Busco sempre respeitar as pessoas dos lugares onde pratico ou visito e principalmente, respeitar meus limites… Mas, essa é apenas uma lição das muitas que o ‘carrinho’ me ensinou”, explicou Jeancarlo.
O que mais chama a atenção quando se compara as duas primeiras gerações de skatistas maranguapenses é o incrível fascínio que ambos exprimem pela liberdade que o esporte proporciona. Tanto Virgílio quanto Jeancarlo destacam a sensação de liberdade como sendo o principal elemento motivador para a prática do esporte. Mas, não é o único. Outra característica comum às duas gerações (e talvez a todos) é capacidade de unir pessoas independentemente de raça, crença, idade, classe social, estado, país etc. O que vale mesmo é se divertir sobre as ‘quatro rodinhas’ com os amigos!
E por falar em amigos, Jeancarlo não se permitiu elencar suas maiores alegrias como praticante de skate sem citar aqueles que tiveram, segundo ele, papel importante para a formação do seu modo (estilo) de andar e principalmente, seu caráter:
“Washington, Cássio, Grey, Narciso (Isqueiro), Franklin, Rodolfo, Bêu, Julinho, alguns dos quais nem andam mais comigo, mas continuam guardados em algumas das melhores lembranças que tenho na vida, dos rolés nos finais de tarde. Todos eles, além do meu irmão, foram os exemplos que tive na infância e adolescência… Hoje, Maranguape tem um Pista Pública de Skate, as pessoas já nos respeitam bem mais e muitas crianças estão começando a se encantar com a magia das ‘quatro rodinhas’. Porém, nem tudo são flores. A pista está praticamente abandonada, precisando de reformas inclusive, e não existem projetos de incentivo à prática do skate. É bem verdade que muita coisa mudou. Mas, ainda precisa avançar muito para que o skate possa assumir a sua condição natural de vetor de promoção da cidadania e da vida saudável”, concluiu Jeancarlo.
Mamãe na pista!
Conversando com Jeancarlo, uma curiosa história veio à tona. No ano de 2009, durante uma visita do então Secretário de Esportes do Estado, Ferrúcio Feitosa, ao município de Maranguape para a entrega dos cartões do Projeto Bolsa Esporte aos atletas contemplados, logo depois da cerimônia a mãe de Jeancarlo, um dos beneficiários do programa, sabendo que o Governo estava construindo pistas públicas em vários municípios do estado, pediu para que o Secretário presenteasse o município com um daqueles equipamentos, para que as crianças e jovens de Maranguape tivessem um espaço adequado para praticar o skate. Na ocasião ela explicou que não só seu filho, mas vários jovens do município, precisavam se deslocar para a Capital se quisessem treinar em uma pista e que isso acabaria se a de Maranguape fosse construída.
Segundo ele relata, apesar de todos terem encarado aquela promessa com ceticismo, no ano seguinte a Pista Pública de Skate de Maranguape já estava sendo inaugurada para a alegria de D. Mª Lucinda, seus filhos skatistas e todos os amantes do ‘carrinho’, dando início a uma nova fase no skate maranguapense.
As novas gerações
Após a instalação da Pista Pública de Skate em Maranguape uma nova e fértil geração vem surgindo com todo gás. São jovens como Jeferson Oliveira Loirinho, Pedro Cabral, Alysson Cesário, Lyon, Yuri Nogueira, Julinho, Talysson Barros, Pablo Henrique, Carlos “Amnésia”, Max, Marcelinho, Júnior Nanã além de vários outros que surgem a cada dia.
Eles são herdeiros da luta dos pioneiros e da geração que os sucederam pelo respeito ao esporte e seus representantes. Atualmente, não somente os pais, como toda a sociedade valoriza muito mais os praticantes do esporte. Cada vez mais longe de estereótipos carregados do preconceito que massacrou a primeira geração, essa turma mostra que andar de skate é um estilo de vida saudável e uma importante ferramenta de socialização e cidadania. Muitos costumam ir acompanhados dos pais e até mesmo alguns desses pais de vez em quando até arriscam uma voltinha sobre as quatro rodinhas, evidenciando a verdadeira transformação que o esporte vem sofrendo ao longo dos anos.
Ainda tem muita coisa pra avançar e evoluir. Mas, essa turma tem dado um grande exemplo de como o esporte pode ser uma importante na vida e no desenvolvimento de qualquer pessoa.


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