segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Surf - Fernando de Noronha, Um paraíso adaptado

PorGeorge W. Noronha - Jogada Diário do Nordeste
Fernando de Noronha - Foto: Ciro Costa
O retorno do surfista profissional Francisco Atanásio após 20 anos longe da Esmeralda do Atlântico. Essa seria apenas mais uma história de um amante inveterado do esporte dos Reis Havaianos, se a vida competitiva desse vencedor não tivesse sido brutalmente interrompida por um acidente que tirou todos os seus movimentos do pescoço para baixo. Mas essa, não é a história que queremos contar e sim, documentar a impressionante experiência dele em um paraíso que, literalmente, tem se adaptado para proporcionar a todos que o visitam, o mesmo prazer e o mesmo encantamento, independente de sua condição física.

E foi exatamente para vivenciar o turbilhão de experiências que Francisco Atanásio, que há 14 anos vive sobre uma cadeira de rodas, saiu de Fortaleza, no último dia 10/01.
Essa história começou quando um grupo de cearenses contavam a história de luta pela acessibilidade travada diariamente por esse surfista e ativista social a um grupo de pessoas que têm tentado mudar a dura realidade. Naquele momento, Francisco Atanásio ainda nem imaginava, mas estava nascendo um projeto que uniria forças para fazer com que ele pudesse realizar o sonho de retornar a Fernando de Noronha e experimentar emoções que nem mesmo em sua primeira visita ele havia vivenciado. Entre essa conversa e a chegada de Bichinho (como ele é mais conhecido) ao arquipélago não se passaram mais que 48h. À equipe cearense coube dar a notícia a ele e organizar a logística de seu traslado, pois, todos os custos ficariam por conta dos parceiros que se reuniram para tornar realidade o que há muito tempo parecia impossível.
“Primeiro eu achei que se tratava de alguma pegadinha, mas, quando vi que quem estava falando eram meus amigos de longa data, não tive dúvida em dizer que estava preparado… Pra falar a verdade, eu até sonhei muito voltar a Noronha caminhando com minhas próprias pernas, afinal de contas, a tecnologia está aí pra isso. Mas, pensar em visitar a ilha como cadeirante, confesso que nunca passou pela minha cabeça… A lembrança das trilhas esburacadas, das subidas, das descidas… naquele tempo já era dureza, com duas pernas e uma saúde de leão, imagine em cima de uma cadeira de rodas. Não era algo que fizesse parte de meus sonhos… Quando eu vi a ilha ainda de dentro do avião, eu não pude acreditar que estava vivendo aquilo novamente”, falou Bichinho.
Logo que Bichinho chegou na ilha, sua primeira parada foi para conhecer o conjunto de adaptações com rampas e esteiras de acesso à praia, implementadas na Praia do Sueste, que tornou o banho de mar no local, acessível a qualquer pessoa. Mas, essa não foi a única experiência que Bichinho experimentou na Praia do Sueste. Lá, ele teve a oportunidade de conhecer o projeto Praia sem Barreiras, que o proporcionou uma das experiências mais radicais de sua vida, onde a vedete é uma cadeira anfíbio que possibilita a pessoas com mobilidade reduzida a terem uma experiência de mergulho assistido.
A aventura consiste em utilizar uma cadeira especialmente projetada para levar o cadeirante até dentro d’água. Uma vez na água, Bichinho pode sentir novamente a emoção de mergulhar na companhia de tartarugas, peixes e claro, com os amigos que juntos tornaram aquela experiência possível.
“Confesso a vocês que eu não imaginava o que me esperava. A princípio eu pensava que iria conhecer Noronha de carro ou no máximo, em um barco. Mas, de repente, eu estava ali, mergulhando com todos aqueles peixes e uma tartaruga enorme ao meu lado. Era simplesmente inacreditável. Meu coração acelerou e eu pude sentir mais uma vez sentir a sensação da adrenalina correndo em minhas veias”, afirmou Bichinho.
Mas, a aventura não acabaria por ali. Depois de um almoço reforçado, partimos em busca de explorar as recém-construídas trilhas adaptadas de Fernando de Noronha. A primeira foi a da Praia dos Golfinhos, uma das paisagens mais belas que se pode ter da ilha, e que atualmente é totalmente acessível a pessoas de mobilidade reduzida. Pra quem não conhece, é no Mirante da Praia dos Golfinhos que se pode observar diariamente, um dos maiores espetáculos da natureza, a chegada dos golfinhos à ilha após uma noite inteira caçando para se alimentarem. Até bem pouco tempo atrás, a trilha que levava ao Mirante era de acesso difícil o que acabava limitando muitas pessoas de poderem aproveitar também a fantástica experiência de ver centenas de golfinhos invadindo a baía, retornando ao seu porto seguro.
Pra encerrar o dia, Bichinho ainda fez questão de conhecer a Trilha do Mirante dos Dois Irmãos, que na minha humilde opinião de viajante, guarda algumas das paisagens mais belas do planeta, a vista de cima da Praia do Sancho, da Praia dos Porcos e a incrível e imponente visão dos Morros Dois Irmãos, que tem aos seus pés a praia mais desejada de todos os surfistas brasileiros, a Cacimba do Padre, que naquele momento, reassumia para ele a condição de palco para o surf, no seu caso, o surf mental. E logo que ele avistou os Dois Irmãos a emoção foi visível. Bichinho não conseguia conter a emoção de ver aquela praia na qual ele enfrentou alguns dos maiores desafios de sua vida ressurgindo em sua vida.
“Pra mim, tudo isso que está acontecendo é um milagre. Eu não consigo definir de outra forma. Ontem eu estava deitado em minha rede em um dia comum, hoje eu estou aqui em Fernando de Noronha, visitando praias e trilhas adaptadas, fazendo mergulho, hospedado em pousadas também adaptadas, tudo o que eu luto desde quando lesionei a quarta vértebra cervical e toda a minha vida mudou. É muito mais do que sorte. É divino!”, falou Bichinho.
Para Pablo Morbis, Diretor Geral da Econoronha, empresa responsável pelas mudanças que estão sendo implementadas para a acessibilidade nas principais atrações turísticas da ilha, a ideia vai muito alé de simplesmente criar espaços próprios exclusivos para pessoas com algum tipo de deficiência motora e sim, transformar os espaços em lugares onde qualquer pessoa possa ter acesso:
“Todo esse conceito de acessibilidade é muito recente no nosso país e por isso, a maioria das alternativas acabam sempre com uma dose de experimentalismo muito grande. Por isso é sempre bom ter o feedback de pessoas como o Bichinho, que a partir de sua história de luta e militância no assunto, já nos deu algumas ideias e sugestões que serão implantadas no intuito de melhorar ainda mais a  experiência para os cadeirantes. Ficamos muito felizes em ter tido a oportunidade de proporcionar essa experiência para ele, mas aproveitamos pra lembrar que esse projeto tem por essência mostrar que o ser humano pode construir espaços onde todas as pessoas tenham a oportunidade de experimentar as mesmas emoções independente de serem crianças, idosos, adultos ou deficientes”, finalizou Pablo.
Particularmente, sempre considerarei Fernando de Noronha um dos lugares mais lindos e radicais do planeta. A força e o tamanho de suas ondas, a beleza de sua vida marinha, os visuais paradisíacos, tudo remete a paraísos como Havaí, Taiti, Bali, dentre outros. Já enfrentei muitas situações perigosas nas ondas de Noronha, assim como também já passei muito sufoco em outras praias do mundo. Contudo, sempre nutri um carinho especial por esse pequeno pedaço do paraíso incrustado no meio do Atlântico. E a partir de hoje, esse carinho e cuidado aumentaram exponencialmente, pois, sei que mais do que nunca, esse lugar mágico poderá encantar ainda mais pessoas que por aqui passarem e todas poderão ter a chance de se apaixonar por esse lugar misterioso, que alimenta sonhos e de vez em quando, opera milagres.
Não poderia deixar de agradecer a Econoronha, ao Tuca Noronha e as pousadas do Zé Maria e Dolphins, que além de terem custeado todas as despesas para que Bichinho conseguisse realizar esse sonho, não mediram esforços para que esse projeto fosse levado à cabo.
SAIBA MAIS
O Arquipélago de Fernando de Noronha é um conjunto de 21 ilhas e ilhotas das quais em apenas uma é permitida a presença humana. E naturalmente, esta é a que acaba levando o nome do arquipélago. Sonho não somente de turistas, mas de toda uma legião de aficionados por esportes como surf, bodyboard, SUP, mergulho, dentre outros, entre os meses de dezembro e abril, se transforma na Meca brasileira do surfe, atraindo pessoas de todos os lugares não só do país, como também do mundo. E justamente por ser um dos estados mais próximos do arquipélago, durante esse período, o Ceará pode ser considerado um dos estados que mais envia visitantes, principalmente, surfistas, para o arquipélago.
Juntas as Trilha do Mirante dos Golfinhos, do Mirante do Sancho e do Mirante dos Dois Irmãos possuem juntas 1620m de trilhas assistidas.
Em todas as trilhas o cadeirante terá um monitor treinado e preparado para dar toda a assistência ao visitante com mobilidade reduzida;
Banho acessível e o Projeto Praia sem Barreiras que é uma parceria da Econoronha com o Governo do Estado de Pernambuco e pretende levar essa experiência para outras praias de Recife, o estado que divide com o Governo Federal, a responsabilidade de cuidar do arquipélago;
Existem dois PIC-Posto de informação e Controle na ilha: um na Praia do Sueste e outro na entrada da Trilha do Sancho. Estão sendo feito estudos para a implantação de mais dois, sendo um na Praia do Leão e outro na Praia da Atalaia. Nestes postos, além de informações o turista pode abastecer suas garrafas de água, diminuindo o impacto causado pelo consumo excessivo de garrafas PET com água mineral.
Por: George W. Noronha - Jogada Diário do Nordeste em 03/02/2014hs

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