terça-feira, 29 de setembro de 2015

Surf - Expedição na Índia, Caçadores de marés

Fonte Waves - Por Serginho Laus 
Caçadores de marés, surf na Pororoca do Rio Ganges, Índia. Foto: Likoska / Surfando na Selva. 
Em pleno século XXI, descobrimos que ainda existem ondas solitárias quebrando perdidas por aí. Um sonho em que nós surfistas vivemos em busca de explorar novos caminhos na intensa caça da onda perfeita. Há 15 anos, fui para a Amazônia explorar a temida e desconhecida onda da Pororoca, nome da onda de maré brasileira. Esse fenômeno me impressionou, pois nunca tinha visto uma onda tão perfeita e longa num ambiente selvagem e desafiador. Uma única onda adentrando o rio por mais de uma hora de duração com formação perfeita e inimaginável. Ali, descobri um universo totalmente novo e, até então, desconhecido. 

Com isso surgiu um novo caminho para a minha vida de surfista profissional, ingressando para o seleto grupo de surfistas de marés (Bore Riders). Uma tarefa nada fácil, que exige muito conhecimento não somente como surfista, mas também da arte de entender o movimento dos astros e da natureza. Nessa nova formação, já acumulei mais de 120 expedições na Amazônia, três expedições na China, uma na França, uma na Inglaterra, uma na Indonésia e uma no Alaska. Sempre nos pontos mais remotos, selvagens e desafiadores em que alguém poderia se arriscar, para surfar as ondas mais longas e perfeitas desse planeta. E depois de 15 anos de aprendizado, conquistei conhecimento e competência para encontrar a onda mais radical, rápida e perigosa no universo das ondas de marés (Tidal Bores). 
A Índia seria o próximo alvo. E num alinhamento perfeito dos astros, teríamos em março deste ano a maré do século, gerando condições perfeitas para essa empreitada no segundo país mais populoso do mundo. 
As grandes variações de marés iriam deixar todas as ondas de marés (Tidal Bores) do mundo fora de controle, sem condições de surf, exceto a Baan, como é chamada a onda de maré (Tidal Bore) da Índia. 
Prevendo condições extremas, reuni surfistas com certa experiência no assunto e uma equipe multimídia para encarar e encontrar novas ondas no rio Hoogly. Masatoshi Ohno, surfista de alma com grandes atitudes e com as linhas mais bonitas que uma onda de maré (Tidal Bore) já presenciou; além do brasileiro surfista de ondas grandes Everaldo “Pato” Teixeira, que é meu parceiro para as condições mais extremas em que poucas pessoas aceitariam a encarar; e o francês Antonie Colas, também especialista no fenômeno. Ou seja, todos amigos que já tiveram experiências com ondas de marés nas principais e mais perigosas ondas de rio do Brasil, China e Indonésia, reunidos para a prova final. 
Encarar um pequeno rio totalmente poluído, com cascatas de esgoto e com muito lixo, pobreza nos deixou chocados com as condições daquele local, em que poderíamos pegar uma séria doença em contato com a água. Tivemos que passar por fases, como num vídeo game, para então encontrar a que considero a melhor pororoca do mundo. 
“A onda é animal!!! Tem um tubo pra esquerda e um tubo pra direita quadrado... Não acreditei no que vi”, lembra Pato. Mal poderíamos saber que a polícia iria nos bloquear de buscar essas ondas no dia seguinte. Depois de muita negociação, pagamos uma multa e ficamos limitados a surfar apenas a seção central do rio Hoogly, no estuário do Ganges, pois as autoridades estavam com muito medo das condições extremas. 
Com muito foco, achamos uma direita perfeita de 6 pés quebrando com força e tubular para a minha alegria, que foi apelidada como "IndiaNias". E que em seguida formou mais uma esquerda perfeita para o Pato. Mas em poucos segundos saímos do céu para o inferno. Yep, responsável por guiar as embarcações com segurança no canal, acabou encalhando na bancada rasa, levando as duas embarcações para momentos de terror. 
As duas lanchas foram pegas pela onda, uma conseguiu se salvar, mas a segunda lancha foi engolida pela Baan, deixando Masatoshi, o fotógrafo Kenyu, o piloto e mais dois tripulantes em situação de risco. Com a experiência de muitos naufrágios na Amazônia, conseguimos ainda salvar a lancha, que ficou sem condições de ser usada nos dias seguintes. Pagamos o preço de estar desbravando o desconhecido. Graças a todas as orientações, não tivemos ninguém ferido, apenas muitas histórias para se contar. 
A cada dia que passava a Baan ficava cada vez maior. Durante essa super lua, três embarcações locais foram pegas pela onda noturna e naufragaram, como também foram registrados quatro óbitos devido aos acidentes causados pela forte onda prevista. 
Apesar das condições extremas da qualidade da água no rio, quando a onda surgia, esquecíamos de que a água era suja e que tinham corpos de seres humanos e animais boiando com corvos rodeando os cadáveres em busca de alimento. Só queríamos surfar! 
A recompensa nos foi dada e pudemos ver e surfar com vento terral as melhores ondas de marés do mundo. Mesmo com grandes dificuldades de posicionamento e na movimentação rápida de um volume imenso de água, que invadiu o delta do Ganges em forma de um “Tsunami” programado. 
Entre navios cargueiros, escrevemos um novo capítulo da história do surf de ondas de marés (Tidal Bore) no mundo, ou quem sabe, até para o surf mundial. Longas ondas sempre. 
Agradecimentos especiais: nossa equipe indiana, Lúdica Filmes, Adranalimitz, Soul Fighter, Sumatra Surf, Goofy, HB – Hot Buttered, G-Shock Brasil, PowerLight Surfboards, Bullys, Mormaii, Submarino Viagens, Mitsubishi, Jet Surf, Quiksilver, Clement Gargoullaud, Kenyu Takahashi, Bob Perez, John Ganem, Likoska, Sanjeev.
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